1ª Jornada

A primeira jornada Internacional de Educação Ambiental significou o percurso para a construção do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, no contexto da Rio 92, quando a Educação Ambiental (EA) tornou-se tema em evidência graças a intervenções de educadoras e educadores ambientais do mundo inteiro. A construção do Tratado passou por diversas etapas até sua redação final, tendo uma “Carta de Educação Ambiental” como ponto de partida que convocava educadoras e educadores do mundo inteiro a trazerem sua mensagem para a Rio 92, tendo a EA como eixo articulador, paralelamente ao que poderia ocorrer em relação ao tema na Conferencia Oficial. Essa carta escrita em São Paulo por educadoras/es de todo o Brasil, teve também a contribuição significativa do educador ambientalista venezuelano Omar Ovalles, que trouxe elementos para a reflexão latino-americana, principalmente sobre a “necessidade de manter a questão ambiental eixo para grade de leitura da realidade de nossos países e, a partir dela, traçar estratégias comuns sobre grandes temas latino-americanos tais como: educação para a paz, os direitos humanos, a integração, a destinação de resíduos, o cuidado da água, entre outros”.

 A evolução dos acontecimentos por ocasião dos Eventos das Comissões Preparatórias da Rio 92 com a participação das ONGs inscritas, fez emergir a ideia de vários “Tratados” das Organizações da Sociedade Civil que participariam da Conferência, dando mais visibilidade e consistência ao Fórum de ONGs e Movimentos Sociais, parte do Fórum Global. E o Tratado de EA, como pensava seus idealizadores, com condições de ser o elo de ligação entre todos os demais, uma vez que a educação, a reciclagem, a renovação dos seres humanos era, em última instância, o que definia a possibilidade de aplicar os demais Tratados.

O processo de elaboração e aprovação do Tratado, levando em conta as possibilidades e limitações das ONGS e Movimentos Sociais que tinham pouca prática de participação em eventos planetários como a Conferência da Rio 92, foi uma experiência privilegiada e demonstrativa de que era possível redigir um documento em comum, a inúmeras mãos e inúmeras culturas diferenciadas. O Tratado, assim como a carta que o antecedeu, circulou nos 5 continentes e foi objeto de seminários, oficinas, encontros em diversos países, com retornos do Brasil e de todos os demais países da América Latina, de países europeus como a Alemanha, Itália, França, Bélgica, Rússia, da Ásia e do Pacífico – como o Japão e a Austrália – dos Estados Unidos e Canadá. Houve depoimentos impressionantes vindos de lugares desconhecidos, querendo contribuir para a elaboração de um “pacto humano” que dissesse como queremos construir este planeta de agora em diante e qual é o compromisso para o novo milênio que nós queremos assumir.

A comissão que sistematizou o texto, para ser estudado e aprovado, procurou ao máximo ser fiel aos anseios expressos nas contribuições recebidas. Além da equipe brasileira e das instituições organizadoras, outras pessoas juntaram-se no Rio em uma comissão ad hoc para revisar o texto e dialogar intensamente. Seus depoimentos são bastante significativos sobre o que este texto significou. (Confira alguns: Marta Benevides, Rachel Trajber, Marcos Sorrentino e Nilo Diniz).

A tenda nº 06, uma das maiores espalhadas na praia do Flamengo era a Tenda da Jornada Internacional de Educação Ambiental que acolhia o Tratado. Durante 05 dias, centenas de pessoas circulavam pela tenda cujas paredes haviam sido forradas com painéis de exemplos de “nossas próprias soluções”, trazidos pelas Faculdades Latino-americanas –FLACAM. Seminários, exposições, painéis, música, teatro sobre Educação Ambiental e, todas as tardes, leitura e diálogo sobre o texto preparado para o tratado, permitiram que, ao final, se chegasse a um texto aprovado em plenária em 04 idiomas e lançado nas ruas do Rio de Janeiro por ocasião da Marcha Final do Fórum Global, com a participação das 2 mil crianças da Escola de Samba Flor do Amanhã, projeto então dirigido por Joãozinho Trinta que se somou a esta iniciativa.

O trabalho foi muito educativo e criador de consciência, desenvolvido por grupos e em diferentes idiomas, usando material preparado para promover a máxima participação e o diálogo, e assim chegar a um maior discernimento. Surgiram conflitos e contradições, mas buscou-se a maneira de promover a escuta, o diálogo e o discernimento dos vários temas, aspectos, preocupações. O resultado foi um tratado extenso e bastante completo, com passos a seguir para assegurar que sociedades/comunidades consigam viver de maneira sustentável e, a partir dali, conseguir cumprir com cidadania planetária e global, resultado deste viver consciente. Como exemplo desse extenso trabalho, confira o que ocorreu com o título do documento, onde cada palavra foi alvo de muita reflexão antes da aprovação, onde tudo foi colocado “sobre a mesa” e tudo foi objeto de diálogo e, por vezes, de discussões acaloradas.

O Tratado de Educação Ambiental, como produto da cooperação e participação da sociedade civil no contexto da Cúpula da terra, através de seus vários processos, sabiamente alimentados pela coordenação do processo, representou, sem dúvida, o início de um processo de se pensar a educação de forma holística e a partir da vida. A metodologia participativa com foco na aprendizagem através da ação articuladora marcou todas as pessoas que participaram. O tratado foi pioneiro na aprendizagem de construção coletiva de um documento global, feito com mãos e mentes de mais de 600 educadores e educadoras da sociedade civil de todo o mundo. E vem orientando pesquisas, seminários de debates e novos programas educacionais tanto na rede formal de ensino como em ONGs e movimentos sociais.

A I Jornada foi assumida pelo ICAE (Conselho Internacional de Educação de Adultos), uma organização que, na época, teve condições de arcar a Jornada em sua concepção, metodologia e finanças. Para este empreendimento, o ICAE teve como instituição parceira o CEAAL (Conselho de Educação de Adultos para a América Latina) e a Rede Mulher de Educação que propiciou em São Paulo, a qual propiciou a infraestrutura necessária para operacionalizar o processo no Brasil. Também participaram, com algumas contribuições pontuais, o SUM/Serviço Universitário Mundial e o ICEA/Conselho Internacional de Educação Comunitária.

Clique aqui para ler o artigo completo: “Somos todos aprendizes” – Lembranças da construção do Tratado de Educação Ambiental, de Moema L. Viezzer, coordenadora da equipe facilitadora do Tratado na Rio 92.

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